6. GERAL 25.9.13

1. GENTE
2. RELIGIO  O PAPA SEM SEGREDOS
3. TECNOLOGIA  O JOGO MAIS CARO DA HISTRIA
4. TECNOLOGIA  O DONO DO MARIO BROS.
5. POLCIA  A LIGA DO MAL
6. NEGCIOS  O PODER DO MONOPLIO
7. MEDICINA  QUEM DIRIA...
8. VIDA DIGITAL  ACHADOS NA MULTIDO VIRTUAL

1. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Guilherme Dearo, Marlia Leoni e Thais Botelho

BOA, BONITA E BEM CARA
Ser h sete anos a modelo mais bem paga do mundo exigiu de GISELE BNDCHEN muitas habilidades, e talvez a maior delas tenha sido manter uma imagem sempre controladamente projetada. A fortuna, calculada em mais de 550 milhes de reais, mostra que o rumo foi acertado e, por isso, continua firme. "Compre legumes e frutas estranhas. Uns diferentes dos outros, do modo que a natureza quis", aconselha a modelo a ttulo de contribuio para uma campanha da ONU contra o desperdcio de alimentos. "Em casa, minhas galinhas comem as sobras orgnicas e ficam felizes em dividi-las com o cachorro. Garota-propaganda de uma grife de jias, Gisele contou enquanto fazia as fotos que, quando est em casa, todos os dias s 18 horas dispensa os empregados para cuidar sozinha dos dois filhos, do marido e da manso de 1300 metros quadrados. 

O DISCURSO DO REI
Entronizado h apenas quatro meses, e como o primeiro rei da Holanda nos ltimos 126 anos  antes, houve uma longa sucesso de rainhas . WILLEM-ALEXANDER fez seu discurso inaugural  nao na cerimnia equivalente  abertura do ano parlamentar cercado de naturais expectativas. O que ele ia dizer? E, principalmente, o que MXIMA ia usar? As respostas foram frustrantes. O vestido e o chapu da nova rainha consorte estavam pesados demais. Pior ainda o discurso, sobre o qual obviamente o rei, numa democracia, no tem nenhum controle. "O estado de bem-estar social do sculo XX acabou", avisou por meio dele o governo conservador. Os holandeses tm de depender mais de si mesmos.

O que  que esta nova baiana tem?
Ningum canta, dana e provoca paixes, no momento, como BEYONC, 32, como se viu nos shows no Rio e em So Paulo, onde foi quase dragada palco abaixo por um f enlouquecido. "Daria minha vida por ela", diz o estudante Caio Miller, que tem duas tatuagens da cantora no corpo e levou um "te amo" dela e uns tapas da segurana. Beyonc causou at no clima de baianidade acostumado a famosos de Trancoso. "As crianas batucaram um ax e sambaram com ela", conta Danilo Passos, professor da escola municipal visitada pela cantora, que usava uma translcida saia de renda, presenteada por Ivete Sangalo. "Tenho fita mtrica no olho. Fiz sem saber as medidas, s de olhar para o corpo dela"', diz a estilista Martha Medeiros. 

S PORTAS DA MATURIDADE
Reparem na lateral do biquini. Bem maior, certo? Pois prenuncia outras novidades na vida de SABRINA SATO. Neste ms, ela completa dez anos como apresentadora do programa Pnico, um recorde de quase vinte contratos publicitrios e o nimo do namorado Jos Vicente de Castro, um dos criadores do site humorstico Porta dos Fundos, que anda falando em casamento. "Talvez eu esteja mais madura", especula ela. Mas no o suficiente para encarar a seco o papel srio num filme em que contracena com Caio Castro. "A cada cena, tenho de sair um pouquinho e me concentrar. Caso contrrio, esqueo tudo e volto a ser a Sabrina." Volta, Sabrina. 


2. RELIGIO  O PAPA SEM SEGREDOS
Francisco no mexer nas doutrinas da Igreja Catlica. Mas numa entrevista histrica e reveladora concedida a um padre jesuta como ele, a um s tempo erudita e simples, mostra que h uma enorme mudana de tom na Santa S em busca dos fiis que perdeu com o tempo.
ADRIANA DIAS LOPES

Francisco  um papa falante. Ouvi-lo ajuda a entender os caminhos da Igreja Catlica. Na semana passada, a mais recente edio da revista italiana La Civilt Cattolica, editada pelos jesutas, e que s vai s bancas depois da aprovao da Secretaria de Estado da Santa S, publicou uma longa  e desde j histrica  entrevista com o primeiro pontfice filho da Companhia de Jesus. Conduzida pelo diretor da publicao, o padre italiano Antonio Spadaro, de 47 anos, ela revela uma estrutura de pensamento erudita e simples ao mesmo tempo. Ao longo da conversa com Spadaro, Francisco deteve-se detalhadamente em assuntos teolgicos e eclesisticos. Falou de forma profunda e delicada de f, confisso, orao e da estrutura burocrtica dentro dos muros do Vaticano.  possvel antever em suas palavras o modo como Francisco pretende implantar a reforma na Cria. Sero mudanas lentas, mas profundas. O papa tambm voltou aos assuntos prticos e espinhosos abordados anteriormente, como as questes relativas ao aborto e a aceitao de homossexuais na Igreja, temas que repercutiram  exausto em jornais e televises de todo o mundo. O encontro com Spadaro ocorreu em trs etapas, em agosto, sempre na Casa Santa Marta, no Vaticano, onde o papa mora. O padre jesuta descreve o lugar como simples e austero  poucos livros, poucos papis, poucos objetos. Spadaro, o interlocutor de Francisco,  cogitado para substituir o poderoso Federico Lombardi, o atual porta-voz do Vaticano e diretor da Rdio Vaticano.

UM AUTORRETRATO SINCERO
Sou um pecador. E no  modo de dizer, um gnero literrio. Sim, talvez possa dizer que sou um pouco astuto, sei me adaptar s circunstncias. Sou tambm um pouco ingnuo. Mas a melhor sntese, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira,  exatamente esta: sou um pecador para quem o Senhor olhou. Quando vinha a Roma, visitava a Igreja de So Lus dos Franceses com muita frequncia. L, contemplava o quadro Vocao de So Mateus, de Caravaggio. Aquele dedo de Jesus assim dirigido para Mateus. Assim sou eu, Assim me sinto. Como Mateus. Este sou eu: um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar."

O ESTILO DA COMPANHIA DE JESUS
Na Companhia de Jesus, trs coisas me marcaram: o esprito missionrio, a comunidade e a disciplina. Isso  curioso porque eu sou um indisciplinado nato. Mas a disciplina deles e o modo de organizar o tempo me marcaram muito. Outro ponto para mim fundamental  a comunidade. No me via como um padre sozinho. E assim se entende por que estou aqui em Santa Marta. O apartamento pontifcio no Palcio Apostlico no  luxuoso.  antigo, grande e de bom gosto. Mas nele se entra como em um funil ao contrrio. A entrada  verdadeiramente estreita. E eu, sem gente, no posso viver. Preciso viver minha vida junto dos outros. Para Santo Incio (fundador da Companhia de Jesus, no sculo XVI),  possvel ter grandes projetos e realiz-los agindo sobre pequenas coisas. Esse discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudanas e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que ser sempre necessrio tempo para lanar as bases de uma mudana verdadeira e eficaz. E este  o tempo do discernimento. O discernimento, por sua vez, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois. E foi isso que tambm me aconteceu nestes meses. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligadas  vida cotidiana, como usar um automvel modesto, esto ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exigncia que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos."

O MODO AUTORITRIO DE GOVERNAR
Na minha experincia como superior na Companhia de Jesus (na dcada de 70), nem sempre fiz as consultas necessrias. E isso no foi uma boa coisa. O meu governo como jesuta tinha muitos defeitos no incio. Estvamos num tempo difcil para a Companhia: uma gerao inteira de jesutas havia desaparecido. Eu era muito jovem. O meu modo autoritrio e rpido de tomar decises levou-me a ter srios problemas e a ser acusado de ultraconservador. Nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritrio de tomar decises que criou problemas."

O MODO DEMOCRTICO DE GOVERNAR
Com o tempo, aprendi muitas coisas. J como arcebispo de Buenos Aires, a cada quinze dias fazia uma reunio com os seis bispos auxiliares e, vrias vezes por ano, com o Conselho Presbiteral. Isso me ajudou a tomar as melhores decises. E agora escuto algumas pessoas que me dizem: "No faa muitas consultas e decida". A consulta  fundamental. Os consistrios e os snodos so lugares importantes para tornar essa consulta verdadeira e ativa.  necessrio torn-los, no entanto, menos rgidos. Quero consultas reais, no formais. A consulta a oito cardeais no  uma deciso simplesmente minha, mas  fruto da vontade do cardinalato, tal como foi expressa nas congregaes-gerais antes do conclave. Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje  a capacidade de curar as feridas e de aquecer o corao dos fiis. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha.  intil perguntar a um ferido grave se ele tem o colesterol ou o acar alto. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de todo o resto. E  necessrio comear de baixo. A Igreja, por vezes, encerrou-se em pequenos preceitos. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos. As reformas organizativas e estruturais vm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. O povo de Deus quer pastores e no funcionrios ou clrigos de Estado.

A HOMOSSEXUALIDADE E O ABORTO
Era Buenos Aires, recebia cartas de pessoas homossexuais, que diziam sentir-se como se a Igreja sempre as tivesse condenado  por isso, chamo-as de feridos sociais. Mas a Igreja no quer fazer isso. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro, disse que, se uma pessoa homossexual  de boa vontade e est  procura de Deus, eu no sou ningum para julg-la. A religio tem o direito de exprimir a prpria opinio para servio das pessoas, mas Deus, na criao, nos tornou livres. A ingerncia espiritual na vida pessoal no  possvel. Certa vez, algum me perguntou, de modo provocativo, se eu aprovava a  homossexualidade. Respondi com outra pergunta: 'Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existncia com afeto ou rejeita-a, condenando-a?". Na vida, Deus acompanha as pessoas, e ns devemos acompanh-las a partir da sua condio. Essa tambm  a grandeza da confisso. O confessionrio no  uma sala de tortura, mas lugar de misericrdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso tambm na situao de uma mulher que carregou um matrimnio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois essa mulher voltou a se casar e agora est serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito, e ela est sinceramente arrependida. O que faz o confessor? No podemos insistir somente sobre questes ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e ao uso de mtodos contraceptivos. Isso no  possvel. Eu no falei muito dessas coisas, e censuraram-me por isso. Mas, quando se fala disso,  necessrio falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja  conhecido, e eu sou filho da Igreja, mas no  necessrio falar disso continuamente. A proposta evanglica deve ser simples, profunda, irradiante.  dessa proposta que vm as consequncias morais.''

AS DVIDAS DE F
A procura por Deus  sempre acompanhada por incertezas. Tem de ser assim. Se uma pessoa diz ter certeza total de que encontrou Deus, alguma coisa no est bem. Se algum tem resposta para todas as perguntas, essa  a prova de que Deus no est com ele.  um falso profeta. Os grandes guias do povo de Deus, como Moiss, sempre deixaram espao para a dvida.  necessrio ser humilde. A atitude correta  a agostiniana: procurar Deus para encontr-lo e encontr-lo para procur-lo sempre."

UMA VIDA DE ORAES
Rezo o Ofcio (livro de oraes da Igreja) todas as manhs. Gosto de rezar com os Salmos (livro da Bblia). Depois, celebro a missa. Rezo o rosrio. Entre 7 e 8 da noite, estou diante do Santssimo (hstia consagrada) durante uma hora, em adorao. Mas tambm rezo mentalmente quando espero no dentista ou em outros momentos do dia." 


3. TECNOLOGIA  O JOGO MAIS CARO DA HISTRIA
O GTA V, que custou 255 milhes de dlares,  um exemplo do que se tornaram os videogames: um negcio multimilionrio com produtos cada vez mais complexos e desafiadores.
FILIPE VILICIC E VICTOR CAPUTO

     Nas cenas mais leves de Grand Theft Auto V (GTA V), o jogador tem de atirar em policiais e roubar inocentes. Nas mais pesadas, sequestra e tortura um personagem  usando um alicate, por exemplo  para extrair informaes que permitiriam encontrar e assassinar um outro. O jogo para videogames GTA V chegou s lojas na semana passada e se consagrou como o produto de entretenimento de mais rpido sucesso comercial da histria. O custo de sua produo (115 milhes de dlares), somado s despesas com marketing (150 milhes), faz dele o game mais caro j lanado. O investimento valeu a pena: em um dia foram vendidos 13 milhes de unidades, no valor de 800 milhes de dlares. A previso  que o lucro da produtora Rockstar com seu GTA V ultrapasse 1,5 bilho. Quais so os motivos desse estrondoso sucesso? 
     As controvrsias em torno do teor violento atraem o pblico? Em pequena parte,  verdade. Mais que isso, porm, as bases do GTA V so: a qualidade grfica  a mais impressionante j vista em um jogo eletrnico , o mundo virtual cheio de detalhes, no qual so recriadas por completo cidades como Los Angeles (no jogo, sob o nome de Los Santos), e o roteiro de 1000 pginas cujo apuro foi comparado ao de clssicos do cinema, a exemplo de Scarface, filme de gngsteres de 1983. Para construir o universo digital, os produtores se basearam em 250.000 fotos e vdeos feitos para o desenvolvimento do game, contrataram engenheiros e usaram atores para dar expresso aos personagens. Mesmo os transeuntes das ruas de Los Santos reagem a cada ao realizada pelo jogador, o que  refletido no movimento de sua face e do corpo. Para obterem esse efeito, os produtores utilizaram tecnologias de captura de movimentos tpicas de blockbusters de Hollywood. A combinao desses fatores fez com que o GTA V atingisse o nvel mximo de avaliao de crticos, segundo o site Metacritic, que usa algoritmos para compilar dados de resenhas em ingls feitas de games, filmes, CDs de msica e outros produtos culturais. No jornal ingls The Guardian, ele foi definido como "uma pardia deslumbrante, mas monstruosa, da vida moderna". Disse o criador e roteirista da srie GTA, Dan Houser: "Livros contam algo, filmes mostram algo, mas games o deixam fazer esse algo. A vida no game pode ser falsa, mas  o que mais se aproxima de uma obra de arte sobre a vida real. Esse  o apelo que temos". 
     A repercusso positiva e o sucesso de vendas so o reflexo do amadurecimento da indstria de videogames  e o GTA  o protagonista dessa histria. Quando foi lanada a primeira edio da srie, em 1997, o negcio dos games movimentava 15 bilhes de dlares ao ano, dois teros do que faturava Hollywood. Dois irmos londrinos, Sam e Dan Houser, comearam a desenvolver o que viria a ser o maior sucesso dos games com um jogo de corrida no qual o jogador controlava um carro de polcia. Mudaram de rumo ao perceber que os desenvolvedores do time se divertiam mais atropelando pessoas do que perseguindo criminosos. Os Houser inverteram o papel do jogador, que passou a ser o criminoso. No primeiro GTA era possvel roubar carros e matar inocentes. O game foi muito criticado como exemplo de "violncia gratuita", visto que em nenhum momento era explicado o motivo de os personagens serem brutais. O ttulo vendeu 150.000 cpias, o que se considera pouco para um game, foi banido em cinco pases, incluindo o Brasil (isso no impediu que o jogo fosse fartamente baixado da internet), e os Houser sofreram processos judiciais. 
     O estardalhao feito em torno das controvrsias do primeiro GTA despertou mais a ateno de rgos reguladores, que classificam a faixa etria de filmes e programas de TV, para os games. Ao ser lanada, em 1999, a segunda edio recebeu, de imediato, o selo que a recomenda a maiores de 18 anos. A srie s viria a ser um megassucesso dois anos depois. O GTA III conquistou 12 milhes de jogadores ao transpor a temtica da violncia para uma cidade ultrarrealista que simulava Nova York. Pela primeira vez, forneceu motivo para as aes criminosas. O protagonista, Claude, era um ladro de bancos trado pela namorada e parceira de crime. Depois de fugir da priso, ele resolveu buscar vingana. No quinto GTA, lanado na semana passada, a trama  mais complexa: um dos personagens chega at a ir a um psiquiatra para debater seus impulsos violentos e se queixa de como se sente controlado por algum (o jogador) que o compele a cometer atrocidades. 
     O advogado americano Jack Thompson, que viria a ser tornar o mais persistente inimigo do game, definiu o GTA III como "o maior problema nos Estados Unidos desde a poliomielite". Para ele, os GTAs so "simuladores de assassinato que ensinam crianas a matar". Em 2003, Thompson defendeu dois irmos americanos que alegavam ter assassinado duas pessoas incentivados pelo GTA III. O advogado pedia uma indenizao de 250 milhes de dlares da Rockstar. Thompson perdeu, assim como fracassaram todos os outros processos que moveu contra os irmos Houser. O GTA III foi banido em vrios pases, como a Austrlia e a Coreia do Sul, por presso de polticos que no gostaram do jogo. 
     Na poca de lanamento da terceira verso, a indstria de videogames faturava 20 bilhes de dlares ao ano, enquanto Hollywood ganhava 31 bilhes. O sucesso motivou o estudo cientfico da influncia exercida pelo teor violento do jogo. Em pesquisa feita com dados coletados de 2000 a 2012, o fsico John Grohol, presidente da empresa de Big Data Psych Central, associou duas estatsticas: os delitos cometidos por jovens e o aumento da venda de jogos em determinadas cidades americanas. A concluso foi surpreendente: a quantidade de crimes violentos praticados por jovens sofrera uma reduo de 30% no mesmo perodo em que as vendas de games recomendados para maiores de 16 ou 18 anos se multiplicam por at trs. 
     Em outro estudo, deste ano, psiclogos da Universidade de Victoria, no Canad, estudaram o comportamento de 7000 crianas, com idade entre 13 e 17 anos, adeptas dos jogos eletrnicos. Ao analisar a relao delas com colegas e professores na escola, perceberam que elas no estavam mais agressivas. Ao contrrio, haviam se tornado mais calmas e analticas no trato social. Disse a designer e estudiosa de games Jane McGonical, autora do livro A Realidade em Jogo, em palestra nos Estados Unidos: "J foi possvel acompanhar a chegada ao mundo do trabalho de geraes de timos jogadores de videogames. Eles so otimistas, proativos, produtivos e construram laos sociais baseados no sistema de cooperao, recompensa e misses ambiciosas que est no cerne dos games". 
     O amadurecimento dos videogames, hoje um mercado de 68 bilhes de dlares ao ano  quatro vezes a arrecadao dos filmes de Hollywood no mesmo perodo e, na indstria de entretenimento, s menor que o da TV  fez com que tambm amadurecesse seu pblico, apelidado de gamers. Se na dcada de 90 a mdia de idade dos gamers era inferior a 20 anos, hoje  superior a 30. "Passaram de coisa de criana para um simulacro da realidade na qual o jogador se sente imerso e um agente ativo", disse a VEJA o americano Michael Pachter, especialista em videogames da Wedbush Securities. At o incio dos anos 2000, os ndices do site Metacritic, que agrupa as resenhas de produtos culturais, mostravam o predomnio de jogos como Mrio e Zelda, para pr-adolescentes. Desde 2006, os jogos favoritos passaram a ser os de teor adulto, rea de especialidade da Rockstar. Alm do GTA, a empresa tem ttulos como Red Dead Redemption (um faroeste) e Max Payne (um policial ambientado em cidades como So Paulo). Em vez de ser recebido com enxurradas de processos judiciais e reclamaes sobre o contedo, o GTA V teve repercusso maioritariamente positiva. O desdm ficou restrito a ultraconservadores, a exemplo do senador americano Louie Gohmert, que tentou relacionar o jogo ao recente tiroteio em Washington e foi ridicularizado na TV por ter esquecido que a tragdia ocorreu antes do lanamento do GTA V. Estima-se que a quinta edio venha a ser jogada por mais de 30 milhes de pessoas.


4. TECNOLOGIA  O DONO DO MARIO BROS.
     O japons Hiroshi Yamauchi, morto na semana passada, aos 85 anos, por complicaes decorrentes de uma pneumonia, no jogava videogame. Mas foi dele a ideia que mudou em definitivo a vida de quem joga. Yamauchi herdou de seu av a Nintendo, fundada em 1889. At ele assumir a presidncia da empresa de Kioto, em 1949, aos 22 anos, a Nintendo era fabricante de cartas de baralho. O jovem Yamauchi sabia que era um negcio decadente. Resolveu diversificar e passou a fabricar tabuleiros, armas de brinquedo e, na dcada de 80, o que faria de sua companhia um gigante do entretenimento: os videogames. Yamauchi dizia no jog-los, mas foi capaz de perceber o potencial dos jogos eletrnicos. O primeiro console da Nintendo, o Famicom, foi lanado em 1983. Um sucesso imediato, com 60 milhes de unidades vendidas. Depois vieram consoles e jogos que transformaram a cultura pop  os videogames Super Nintendo, Nintendo 64 e Nintendo Wii, e os games Donkey Kong, The Legend of Zelda e, sobretudo, Mrio Bros., que se confunde com a prpria histria dos videogames. Nos anos 90, a Nintendo dominava 90% do mercado (hoje tem 20%). Pesquisas mostravam que crianas tinham mais facilidade em reconhecer o Mrio do que o Mickey Mouse, personagem-smbolo da Disney. 
     Yamauchi, que deixou a presidncia em 2002, morreu em um momento difcil para a empresa, que registrou queda de 40% nos lucros em 2012. O estilo de jogos da Nintendo, focado em crianas e pr-adolescente, tem perdido terreno para games baratos para smartphones e tablets, na linha de Angry Birds. Nos consoles, a liderana foi assumida pelos jogos para adultos como o Playstation, da Sony, e o Xbox, da Microsoft. No se pode falar em game over. Como Yamauchi disse, numa entrevista: "A guerra dos games nunca vai terminar. Ningum sabe o que surgir amanh". 


5. POLCIA  A LIGA DO MAL
Relatrio obtido por VEJA mostra que a polcia deixou um naco inteiro do Rio sob o domnio de Batman, o chefo da maior e mais poderosa milcia do pas.
LESLIE LEITO

     Nas franjas da Zona Oeste do Rio de Janeiro estende-se uma rea de 153 quilmetros quadrados que abriga 500.000 pessoas e 26 favelas. Historicamente, o crime vicejou ali  sombra do poder pblico, fazendo do lugar um barril de plvora. Conhecida como Campo Grande, a regio  um deserto de policiais, escassez que um relatrio interno da Polcia Militar, ao qual VEJA teve acesso, expe com nmeros: h nas ruas apenas um PM para cada grupo de 2498 habitantes  menos de um tero da proporo que se v no restante da cidade e um dcimo do que a Organizao das Naes Unidas (ONU) considera razovel. Por isso, espanta outro dado que corre em paralelo: em tempos recentes, em nenhum outro lugar do estado as taxas de homicdio caram tanto, e em poucos os roubos retrocederam como l. A explicao para esse paradoxo  perversa. A trgua momentnea, que vem mascarada de boa notcia, no passa de estratgia da bandidagem para se manter no poder sem ser incomodada. , por assim dizer, uma etapa evolutiva do crime organizado. "Quanto mais invisveis as gangues conseguem ser, mais seguros e rentveis so seus negcios, a exemplo das mfias", diz o socilogo Cludio Beato, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurana Pblica. No significa que, na surdina, a barbrie no d as caras. 
     A organizao criminosa em questo  tida hoje como a maior milcia do pas, um bando de policiais e ex-policiais que, h coisa de uma dcada, espantou o trfico da regio. O chefo  o ex-PM Ricardo Teixeira Cruz, o Batman. Mesmo preso,  ele que continua ditando as regras. Da o nome da quadrilha: Liga da Justia. Ningum tem dvidas em Campo Grande sobre quem est no comando. A intimidao e o medo garantem  gangue o silncio e o respeito. Todos os dias, os milicianos fazem a ronda, rua a rua, deixando  mostra seu poder de fogo; os fuzis so exibidos pelas frestas das janelas de suas picapes, cobertas por pelcula escura. Para abrir um negcio no bairro, seja qual for a natureza, s com a anuncia da milcia. O sinal verde dos marginais  sempre dado mediante uma taxa, que rende mensalmente ao bando cerca de 3 milhes de reais. A prpria milcia explora atividades como TV a cabo clandestina (o "gatonet") e o transporte de vans. Vende ainda cestas bsicas de porta em porta, que os moradores no ousam recusar. Nas eleies municipais de 2012, pela primeira vez, candidatos de todos os partidos foram autorizados a fazer campanha ali ( exceo de uma candidata identificada com uma milcia rival, alvejada durante um comcio naquelas bandas). Tudo isso acontece sob as barbas dos poucos policiais, que ainda receberam bonificaes pela queda nas taxas de criminalidade na regio. Sim,  isso mesmo. 
     O relatrio oficial traa tambm um cenrio geral do policiamento em todo o Rio de Janeiro: no faltam homens na tropa, mas PMs nas ruas  e no lugar certo. Para se ter uma ideia, de um efetivo de 44.371 policiais, quase metade (22.661) no est cumprindo sua funo primordial. A rea mais desassistida  a Baixada Fluminense, justamente onde tm se refugiado os bandidos de favelas cariocas que receberam Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs). O crime l disparou: os homicdios subiram 71% num s ano. E onde se encontra, afinal, a turma que no se v nas ruas? Segundo os dados da polcia, 28% trabalham em variados servios dentro dos batalhes (de tareias de escritrio  cozinha). Outros 20% se encontram afastados por razes de sade ou disciplinares  310 deles esto presos. 
     A banda da PM do Rio  um curioso captulo no rol das distores. Ela emprega 134 policiais-msicos. Pode no  parecer um nmero to alto, mas  o dobro do que tem a banda da polcia de Nova York e mais at do que a Filarmnica de Berlim, uma das melhores orquestras do planeta, com seus 125 msicos. Tocar na banda fluminense  o sonho de muitos PMs: o salrio  o mesmo dos colegas que se arriscam nas ruas e o turno, bem mais suave  para cada dia de trabalho, trs so de folga. Depois de procurado por VEJA, o comando da corporao anunciou que contratar civis para render os PMs nas tareias, administrativas do batalho e devolv-los  sua atividade-fim: o combate aos marginais. Avisou ainda que a vida boa dos msicos vai acabar. Se cumprida a promessa, eles tero de se revezar entre sua arte e a patrulha. 


6. NEGCIOS  O PODER DO MONOPLIO
A mania do ano em Nova York  o cronut, hbrido de croissant e donut. As filas comeam s 6 da manh e muitos que conseguem um dos 300 doces feitos por dia o revendem at por 80 dlares na internet.
ALVARO LEME

     Quem assistiu ao episdio "The soup nazi" do seriado Seinfeld vai entender direitinho o fenmeno do cronut o hbrido de croissant (o delicado pozinho francs de massa folhada) com donut (o americanrrimo biscoito frito redondo com um furo no meio), inveno do chef francs Dominique Ansel, de 35 anos. que  a mais nova mania de Nova York. Essas manias, em especial as culinrias, emergem como pandemias pela cidade, desfrutam os privilgios do monoplio, em geral justificado pela existncia real ou imaginria de uma receita ou ingrediente secreto, at cederem seu lugar para um modismo novo. Como Nova York tem uma populao flutuante muito grande, muitos desses estabelecimentos que causam furor instantneo continuam com filas nas portas mesmo depois que os nova-iorquinos j direcionaram sua obsesso pela novidade para outro lado. Nada mais nova-iorquino do que essas momentneas exacerbaes do poder de mercado, como se v na dramatizao do seriado Seinfeld, em que os clientes no apenas aceitam pagar um preo alto por um pote de sopa, mas se submetem bovinamente  rispidez e ao autoritarismo do chef que ao menor deslize  escolher o sabor da sopa ou pedir um po para acompanhar  berra "No soup for you!" ("Nada de sopa para voc!"). 
     O amvel Dominique Ansel no grita com ningum, mas vive seu momento de poder monopolista absoluto, evidenciado pelas filas interminveis que se formam diante de sua padaria e confeitaria no SoHo  e pelo ativo mercado secundrio de cronuts tocado via internet por alguns dos privilegiados e obstinados clientes que conseguem comprar um dos 300 docinhos feitos por dia. Na Dominique Ansel Bakery eles custam 5 dlares e duas unidades  a quantidade mxima vendida por cliente. Na internet, os cronuts chegam a valer 30 dlares cada um, quando o comprador vai busc-los  e at 80 dlares com entrega em domiclio. Evoluo tpica dessas manias, as falsificaes esto por toda parte. Por enquanto, o cronut de Ansel tem sua legitimidade atestada pela inimitvel embalagem dourada e, claro, por um pedido de patente. 
     Em sua Histria do Fanatismo Americano, Gilbert Seldes lembra que, j no fim do sculo XIX e no comeo do XX, as manias culinrias eram alimentadas pela propagao de certos mistrios falsos ou no verificveis, que justificavam o preo absurdo cobrado por elas. O tomate, tido como venenoso se comido em grande quantidade, seria um poderoso afrodisaco, e poderia ser taxado de libidinoso o anfitrio que naquele tempo inclusse a fruta nos pratos oferecidos em um jantar. As manias so recorrentes na histria. Em um cantinho escuro da alma humana est a concepo de que, se meu amigo (ou inimigo) quer alguma coisa, eu tambm quero, e com mais intensidade. Se essa coisa for escassa, ento, obt-la vale qualquer loucura, e d-se o ciclo vicioso. A busca descontrolada aprofunda a escassez que faz o preo subir, o que d mais vontade ainda de consumir. 
     No livro que primeiro explorou as razes desse comportamento, Iluses Populares e a Loucura das Massas, de 1841, o escocs Charles MacKay capturou as caractersticas essenciais e comuns a todas as manias  seja a das tulipas na Holanda do sculo XVI, seja a da bolha financeira de 2008 ou a das bolsas de grife, seno a mais resistente, a mais frentica de todas. Disse MacKay: "As pessoas enlouquecem em manada, mas s recuperam o juzo lentamente, uma por uma". A loucura das iluses em massa pode provocar falncias, perseguies e inimizades quando ocorre em grande escala e envolve altos valores. Ou pode, simplesmente, engordar, no caso da bomba calrica da moda em Nova York criada pelo chef Dominique Ansel. 


7. MEDICINA  QUEM DIRIA...
Algumas das caractersticas que fazem dos homens homens so determinadas pelo estrgeno, o hormnio das formas arredondadas e da voz suave to marcantes nas mulheres.
ADRIANA DIAS LOPES

     Em 1935, quando dois qumicos, o alemo Adolf Butenandt e o croata Leopold Ruzicka, desenvolveram uma verso sinttica da testosterona, o hormnio masculino, deu-se um fenomenal passo na compreenso dos mecanismos de funcionamento do metabolismo do homem. Abriu-se ento uma avenida de descobertas. No organismo masculino, a testosterona  trinta vezes mais abundante do que no corpo da mulher. Produzida principalmente pelos testculos, ela est associada ao comportamento e s caractersticas fsicas que determinam a constituio do homem. Se o sexo masculino  mais musculoso, mais forte e mais peludo do que o feminino, o responsvel  a testosterona.  por meio dela que eles acumulam a energia do desejo sexual, e sem ela no haveria espermatozoides. Quase oitenta anos se passaram e o que parecia improvvel aconteceu. Um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, nos Estados Unidos, e divulgado pela revista cientfica americana The New England Journal of Medicine, revela que (surpresa!) boa parte dos atributos masculinos se deve na verdade ao hormnio feminino, o estrgeno. Sim, a substncia responsvel pela feminilidade, pela voz fina, pelas formas arredondadas das mulheres participa de qualidades essenciais  masculinidade. O estrgeno  primordial na queima de gordura e na libido do homem. " uma extraordinria reviravolta em antigas certezas", diz o endocrinologista Rafael Loch Batista, do Hospital das Clnicas, em So Paulo. Os pesquisadores americanos usaram como matria-prima de estudo o estrgeno naturalmente fabricado pelo organismo masculino. O homem produz, em mdia, 0,00000000003 grama por mililitro de sangue de estrgeno, quantidade dez vezes inferior  produzida pelo organismo feminino. Cerca de 20% do estrgeno circulante no homem  fabricado pelos testculos. O restante  subproduto da testosterona, nas clulas de gordura. "O trabalho de Massachusetts  de um primor absoluto", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), de So Paulo. Todos saudveis, os 400 homens participantes da pesquisa tinham entre 20 e 50 anos. Durante o estudo, eles foram submetidos a uma castrao qumica  mediante o uso de medicamentos, tiveram a produo de testosterona temporariamente suspensa. Com a produo do hormnio reduzida a zero, eles, ento, foram divididos em dois grupos. Metade dos voluntrios recebeu testosterona e tomou um medicamento para interromper a converso do hormnio em estrgeno na gordura. Eles tinham, portanto, apenas testosterona circulante em seu organismo. A outra metade foi submetida a doses de testosterona comum  aquela que se converte em estrgeno. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram determinar com preciso o impacto do hormnio feminino entre os homens. Os dois grupos foram submetidos a quatro doses diferentes de hormnios, diariamente. A via de administrao foi o gel, mais seguro do que as injees, por no ser metabolizado no fgado. 
     As concluses dos pesquisadores de Massachusetts estimulam uma das discusses mais acaloradas na endocrinologia, a da reposio hormonal para o sexo masculino. Diz o endocrinologista Eliaschewitz: "Em tese, o trabalho deixa claro que em alguns casos o tratamento de reposio hormonal seria mais preciso se pudesse ser feito diretamente com estrgeno, em vez de testosterona". Isso por enquanto  impossvel  a no ser que se quisessem homens de voz fina, quadris largos e mamas. "Hoje, basta uma dose diria de estrgeno equivalente a uma plula anticoncepcional para o homem se feminilizar", explica o endocrinologista Loch Batista. Os transexuais, que buscam a transformao, chegam a tomar dez plulas dirias para mudar suas caractersticas fsicas. A polmica em  tomo da reposio hormonal masculina comeou na dcada de 40, logo depois da primeira verso da testosterona sinttica, portanto. Na ocasio, fisiculturistas americanos passaram a usar esteroides anabolizantes com doses concentradas de testosterona para aumentar os msculos. Mais tarde, por volta dos anos 80, fora das academias, cinquentes recorreram  substncia para combater sintomas do envelhecimento, como a perda de massa muscular, a baixa na libido, o ganho de gordura corporal e a depresso. Atualmente, no Brasil, a venda de testosterona, assim como de outros hormnios,  permitida mediante a reteno da receita mdica pela farmcia. No entanto,  possvel comprar tais produtos pela internet, com alguma facilidade. O uso indiscriminado  um perigo ao organismo. Um deles  a impotncia sexual, causada pela atrofia dos testculos, as fbricas de testosterona no organismo. Outro  o aumento no risco de cncer heptico, pela sobrecarga que a substncia pode causar ao ser metabolizada no fgado. A reposio s  indicada se o paciente apresentar quantidades aqum das consideradas saudveis para a sua idade. Poucos homens tm a indicao de receber doses extras do hormnio. O organismo masculino atinge o pico de produo de testosterona aos 20 anos. As taxas se mantm estveis at por volta dos 40 anos. "A partir de ento, perde-se, em mdia, 1% ao ano", diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento. Chega-se aos 70 anos, portanto, com cerca de metade do hormnio em relao ao que se tinha na juventude.  a andropausa, a menopausa masculina. Diferentemente do que ocorre com a mulher, entre os homens, a queda hormonal se manifesta de forma lenta e gradual. O estudo publicado no The New England Journal of Medicine ratificou ainda uma recente descoberta nesse campo. O primeiro sintoma da andropausa  o ganho de peso j ustamente um dos efeitos da baixa de estrgeno nos homens. 

EM CASO DE FALTA
 natural que, com o envelhecimento, diminua a produo de hormnios. Doses extras, no entanto, s so indicadas nos casos em que as taxas hormonais ficam aqum dos patamares considerados saudveis  e devem ser administradas sempre sob orientao mdica, no custa repetir. A seguir, trs hormnios importantes para o homem e os efeitos de sua reposio.

TESTOSTERONA
O que : Sintetizada pelos testculos, atua de forma generalizada no organismo. Aumenta a massa muscular, estimula o metabolismo celular, participa do crescimento de pelos,  fundamental na formao dos espermatozoides e estimula a libido, entre outras funes 
Incio da queda: A reduo nas taxas de testosterona comea por volta dos 40 anos. A partir da, a queda  de 1% ao ano, em mdia 
Efeitos da reposio: A partir dos 50 anos, por exemplo, dois a cada dez homens so candidatos a doses extras do hormnio. O tratamento deve ser feito com cautela, pois, sem necessidade, a suplementao, sob a forma de gel ou injeo, pode levar a problemas hepticos e estimular o crescimento de tumores 

GH 
O que : Secretado pela hipfise e conhecido como o hormnio do crescimento, estimula a diviso celular e equilibra a distribuio de gordura no organismo 
Incio da queda: Comea a baixar por volta dos 30 anos. Aos 55, os nveis de GH tendem a ser 70% menores em relao ao que eram na juventude 
Efeitos da reposio: Um a cada dez homens  candidato  reposio de GH. A suplementao, feita por meio de injees, deve ser controladssima pelo mdico. Em excesso, o hormnio pode estimular o crescimento de tumores existentes. Estudos iniciais tm testado compostos que levam a hipfise a liberar GH. Tal mecanismo de ao ofereceria menos efeitos colaterais 

MELATONINA
O que : Fabricada pela glndula pineal, durante o descanso noturno, participa da regulao do sono. Est diretamente envolvida na produo de GH, secretado, sobretudo, enquanto dormimos 
Incio da queda: A reduo na sntese de melatonina comea por volta dos 50 anos 
Efeitos da reposio: Comprimidos de melatonina no s ajudam na regulao de GH, como so indicados contra a insnia e a depresso 


8. VIDA DIGITAL  ACHADOS NA MULTIDO VIRTUAL
O Big Data, a cincia de anlise da exponencial abundncia de dados no mundo, fornece a ferramenta perfeita para recrutar, gerenciar e reter talentos em empresas.
FILIPE VILICIC E RAQUEL BEER

     Quem nasce no sculo XXI  rodeado de grandes quantidades de dados desde o primeiro momento de vida. Uma em cada trs crianas americanas tem presena virtual  normalmente na forma de sua ultrassonografia, salva pelos pais na internet  antes mesmo de nascer. Nove em cada dez j possuem algo pessoal armazenado na internet ao completar 2 anos. Praticamente tudo o que uma pessoa faz  guardado digitalmente em bancos de dados e preservado pelo resto de sua vida  e at depois dela. Por dia, 3 exabytes de informaes circulam pelo mundo, o equivalente a metade de toda a informao produzida pela humanidade desde a Idade da Pedra. A essa abundncia de informaes se d o nome de Big Data. Interpretar corretamente o Big Data  uma ferramenta preciosa para empresas na disputa com a concorrncia. Quem sabe minerar naquele oceano de dados pode encontrar, por exemplo, a resposta a um problema que sempre atormentou os administradores: o recrutamento e a reteno de talentos. Com informaes que circulam livremente pela internet  possvel traar o perfil psicolgico e identificar as qualidades e os defeitos de um profissional. Nos ltimos dez anos, softwares tm substitudo funes de psiclogos na rdua tarefa de manter funcionrios produtivos e felizes com seu emprego. 
     O Google  um dos pioneiros. Todos os produtos da empresa tm base no levantamento de dados. So as ferramentas de Big Data que fizeram do Google um gigante com faturamento anual de 50 bilhes de dlares. Com o uso de algoritmos, seu site de buscas realiza, em fraes de segundo, pesquisas em 3 milhes de computadores. Os algoritmos tambm servem de alicerce para a reconhecida qualidade no gerenciamento de talentos. Nos ltimos quatro anos, o Google manteve o ttulo de melhor empresa para trabalhar nos Estados Unidos. A escolha  realizada por meio de consulta aos prprios funcionrios. "Para coordenar pessoas,  mais confivel guiar-se por dados do que pela intuio, que  cheia de preconceitos", disse a VEJA o psiclogo Brian Welle, gerente do People Analytics, departamento do Google que analisa dados de empregados. Essa rea, por sinal, no existia nas empresas antes do Big Data. 
     O Google usa computadores para gerenciar a trajetria profissional de seus mais de 30.000 funcionrios, apelidados de "googlers". No recrutamento, softwares selecionam os melhores currculos e o perfil psicolgico ideal, antes de submeter o candidato a qualquer entrevista. Para incentivar e manter talentos, a rea de People Analytics confia em algoritmos que levantam informaes dos "googlers". So consideradas variveis to diversas como a alimentao, a rotina de exerccios fsicos e o comportamento de diretores no relacionamento com subordinados. 
     No ano passado, um dos softwares detectou o aumento no ndice de consumo de comidas de alto teor calrico. A empresa fornece refeies gratuitas e um novo "googler" engorda em mdia 7 quilos em trs meses. Percebeu-se tambm que o sobrepeso diminua o empenho e a produtividade. Para controlar a comilana, a equipe de Welle props esconder os doces em potes escuros, guardados em prateleiras altas. J as frutas foram colocadas em local de fcil acesso e grande visibilidade. O resultado foi uma reduo, em apenas sete semanas, de 3,1 milhes de calorias na ingesto de alimentos. 
     O Google, o Facebook e outras companhias do Vale do Silcio serviram de modelo para empresas de setores tradicionais. Desde 2010 a Votorantim, conglomerado brasileiro que atua em vrios segmentos da indstria, aplica servios de Big Data no recrutamento. A companhia comeou com o Linkedln, rede social focada em profissionais e que conta com 238 milhes de currculos e 3 milhes de empresas. Neste ano, animada com o sucesso da experincia com o Linkedln, a Votorantim contratou a startup brasileira 99jobs. A 99jobs desenvolveu um algoritmo capaz de traar em redes sociais o perfil de candidatos. "Deixou processos de contratao quatro vezes mais rpidos", diz Paula Gianetti, gerente de captao de talentos da Votorantim. "Se antes contvamos apenas com currculos enviados para preencher vagas, agora detectamos profissionais empregados, que nunca nos mandariam um currculo. Eles podem se interessar pelas nossas propostas." No Linkedln, oito em dez cadastrados esto empregados. Desde sua criao, em 2003, a rede inverteu o sentido at ento usual da busca por trabalho: seu pblico so empresas que buscam profissionais, no desempregados que procuram por salrio. 
     O Big Data chega como o melhor recurso para contornar a falta de mo de obra. Quase 40% das empresas dizem no conseguir preencher vagas em aberto pela falta de profissionais qualificados. H reas em que a disputa por talentos  especialmente ferrenha. Estima-se que o dficit de mo de obra especializada em Big Data, por exemplo, chegar a 60% era 2015. A melhor forma de preencher as vagas  garimpar entre os quase 3 bilhes de pessoas que produzem exabytes de informaes na internet. Nos Estados Unidos, onde o mercado de Big Data est amadurecido, h softwares focados no recrutamento de profissionais de categorias especficas. H tambm sites especializados em avaliar perfis em redes sociais, como o Klout Score. Disse a VEJA Joe Fernandez, criador do Klout, em entrevista recente na sede da empresa, no Vale do Silcio: "O universo virtual abriu portas para que se saiba tudo sobre todos. Essa  uma das maiores revolues iniciadas pela internet". H, evidentemente, uma rea cinzenta no uso de Big Data.  tico uma empresa acessar dados pessoais que empregados compartilham on-line? Estratgias como as do Google no tm o objetivo, no fim das contas, de segurar mais o funcionrio no escritrio e impedir que ele d ateno  vida fora do trabalho? No h respostas fceis a essas perguntas. O certo  que a transformao tecnolgica do Big Data veio para ficar.

SELEO NAS REDES SOCIAIS
A biomdica Aline Ranieri  gerente na multinacional farmacutica Eli Lilly - e um dos fatores considerados em sua contratao foi o que ela publicava em redes sociais. Aline, que no tinha experincia na rea administrativa, foi selecionada por um software da empresa Kenexa, da IBM, cuja tarefa  checar se currculos e tambm o comportamento virtual do candidato so compatveis com o cargo oferecido. 

CONTRATAO INESPERADA
Se fosse s pelo currculo, o americano Duncan McGreggor no seria gerente da Rackspace, empresa de servios de armazenamento de dados. Matemtico, ele  autodidata em programao. Um software de Big Data o recomendou depois de descobrir que McGreggor colaborava com comunidades de programadores de computadores. 

ECONOMIA DE TEMPO
Paula Gianetti, gerente de captao de talentos da Votorantim, gastava horas na leitura de currculos e em dinmicas de grupo. Hoje, essas tarefas so substitudas por dois softwares de Big Data, que analisam dados no Linkedln e em outras redes sociais. Assim, sobra mais tempo para ela cuidar de quem j foi contratado.

TUTES ANALISADOS NO DIV
As redes sociais da internet tornaram-se uma mina de ouro para pesquisas cientficas sobre o comportamento humano. Num estudo pioneiro feito no ano passado, cientistas da computao da Universidade de Bristol, na Inglaterra, usaram tcnicas de Big Data para identificar, pela anlise das mensagens de 140 caracteres do Twitter (os tutes), a associao entre o noticirio do dia e as variaes de humor dos ingleses. No foi preciso ler cada tute publicado na rede nos 31 meses que durou o estudo - tarefa, de qualquer forma, impossvel de ser realizada em prazo to curto pelos trs pesquisadores envolvidos no projeto. O instrumento utilizado foi um programa de computador capaz de garimpar tutes que contivessem uma entre 146 palavras relacionadas a raiva, 92 ligadas a medo, 224 a alegria e 115 a tristeza. Se algum digitava "foi legal assistir ao casamento real", o tute era colocado na categoria "alegria". Se a frase fosse algo como "sofro devido aos cortes de gastos do governo", era computada em "tristeza". Pela avaliao automtica de 484 milhes de tutes, os pesquisadores chegaram  concluso de que predominava entre os ingleses o sentimento de raiva devido ao anncio de cortes nos gastos pblicos, que atingiram principalmente a previdncia social e a educao, em 2010. Tambm foi possvel avaliar a alegria da populao com o casamento do prncipe William e Kate Middleton, no ano seguinte. Em outra pesquisa, de 2010, psiclogos da Universidade de Edimburgo analisaram o perfil de 300 cadastrados no Facebook, com idade mdia de 21 anos, para concluir que, quanto maior o crculo de amigos, mais estressante  a administrao do que se publica. Se um adolescente possui centenas de amigos, ele tende a tomar maior cuidado antes de compartilhar fotos de festas ou com referncias sexuais. Afinal, entre tantas pessoas pode estar uma conhecida de sua me. "A vantagem dos dados  que no ambiente virtual as pessoas costumam ser mais sinceras do que seriam ao responder a pesquisas de campo", disse a VEJA a americana Brittany Gentile, psicloga da Universidade da Gergia e autora de um estudo que usou o Facebook para avaliar a autoestima de 150 universitrios. 


